Ultimamente tenho me sentido num verdadeiro circo de horrores amoroso.
O último que atravessou a arena foi um palhaço. E não é força de expressão, era um palhaço mesmo, de profissão. Já no primeiro encontro disse a ele que provavelmente usaria isso a meu favor na narrativa daquela história que mal começara e que eu já sabia que não iria dar em lugar algum além da frustração. Cá estou eu. O que eu não esperava é que ele fosse entrar tanto no personagem a ponto de me confundir sobre o que é real. O meu mal é ainda ter paciência de tecer um único fio de esperança e trazê-lo sempre comigo.
Fui cética às primeiras juras de amor, costumo agir assim como forma de proteção. No dia seguinte já estava em dúvida se ele se lembrava das promessas que havia feito, pois foi repetitivo em alguns assuntos. As falas seguintes eram sempre me chamando de linda, de amor, sempre justificando o desencontro nas várias oportunidades que surgiram. Me ligava sempre de madrugada e as ligações sempre falhando, assim como suas respostas no chat, sempre desconectadas das minhas perguntas. Ia assisti-lo no teatro e perguntei se poderíamos nos falar ao final. A negativa veio com tantas desculpas que quase retruquei que ele não se esforçasse tanto.
A partir daí a ficha foi caindo, sempre mais devagar do que deveria. Acredito que ele tenha se embrenhado nos meus sonhos de amor - como só os melhores personagens fazem - por uma falha no meu sistema de segurança. A repetição das palavras amorosas, da expressão do seu desejo, junto com a sua figura doce e o arquétipo de artista, me fez abrir passagens internas que normalmente se encontram fechadas.
Escrevi dizendo que ele não precisava mais se preocupar em me procurar, já que eu não cabia na sua agenda e ele prontamente respondeu dizendo que aquilo era um absurdo, que nos veríamos sim, na semana seguinte! Dois dias depois descobri que ele passaria a semana fora viajando! É gaslighting que chama? Porque foi aqui que percebi o nível da manipulação, que percebi como estava enlaçada nas falsas promessas e como já estava me sentindo meio louca, sem saber se estava reagindo na proporção certa. Comuniquei a ele várias vezes a minha confusão, sem obter resposta. Enviei áudios explicando como estava me sentindo e recebi silêncio. Eu já devia ter me calado há muito tempo, mas há algo quebrado dentro de mim. Há uma revolta em não agir diante do que sinto ser desrespeito. É preciso notar que seu silêncio era apenas diante das minhas falas. Sua mão ainda se deu (e dá) o trabalho de curtir minhas fotos e postagens diárias.
Me sinto no meio da arena sendo observada por uma platéia cheia de Julias - do passado, do presente, Julias do futuro que eu projeto - ofuscada pelas luzes e sons, rodeada de personagens estranhos e confusos que me fazem esquecer a próxima fala do roteiro. À mulher solteira resta a dúvida, a incerteza, a semi-ausência, o silêncio. Resta o cansaço de ter que se bastar sozinha e ser feliz - discurso lindo e necessário, mas solitário e um pouco triste ao mesmo tempo.
De palhaços e fantasmas essa lona já está cheia. O trem mal assombrado desse parque já está batido, não assusta mais ninguém. A monotonia desse passeio só faz cansar e se as moscas forem espertas, partirão junto comigo desse lugar.