5.9.19

Uma alegria para sempre

A gente se conheceu numa festa de natal da rua. Os véio tudo bebendo e comendo e a gente naquele tédio de festa de adulto. Foi meio estranho no começo, meio constrangedor, aquela obrigação de se juntar na tentativa de melhorar a noite... mas funcionou! As meninas viraram unha e carne. Eram vizinhas, coisa de 4 casas de distância, mas uma tinha que dormir na casa da outra, porque a distância parecia maior. 

Ela fazia balé e tinha o corpo mais desenvolvido, eu olhava e me perguntava quando viraria mulher, aquela mulher de 10 anos de idade que eu sonhava que seria um dia. Tinha uma irmã mais velha com quem brigava intensamente, trocava e roubava roupas e aprendia do feminino, eu tinha um irmão mais novo, então aprendia com ela também. À noite trocavam segredos, dicas de moda e de beleza, treinavam suas competências beijando nos braços... A mais velha ensinava a mais nova sobre os mistérios da vida. Acompanhando tudo, o lanchinho, que era sempre um achocolatado bem doce, industrializado. Eu implicava em escovar o dente depois, com medo das cáries, mas ela gostava de dormir com o gosto na boca. Passávamos horas falando besteiras, sonhando acordadas até o sono vir para alguém.

Estavam sempre pra lá e pra cá arrastando sacos enormes de brinquedo pela rua porque as brincadeiras eram elaboradas, não sabiam brincar pequeno. Se vestiam de brega, cozinhavam receitas malucas. Uma vez foi um pudim com não sei quantos ovos que deu dor de barriga, também tinha muito brigadeiro de panela, mas a especialidade da casa era uma sopa aguada com miojo. 

Inventaram apelidos secretos uma para a outra. Ela era a avestruz porque comia o tempo todo. A inspiração veio das avestruzes bailarinas do filme Fantasia. O meu virou senha. Também inventaram palavrões para não perder a elegância com aqueles vulgares mais comuns, mas eram tão difíceis que acabaram guardados em uma caixinha, disfarçados entre botões para nunca serem encontrados.

Tinham uma brincadeira muito especial. A casa dela era cheia de revistas da National Geographic e livros enormes da Tachen. Um dia deu na cabeça que abririam uma empresa cultural, a Escher Tachen. Éramos secretárias executivas, super atarefadas, bem vestidas, resolvendo vários problemas burocráticos e conferindo nossa agenda lotada. Bolávamos nomes de exposições, éramos curadoras e fabricávamos os convites para as vernissages que eram colocados em envelopes guardados em pastas para não amassar. Os nomes dos destinatários iam escritos com letra cursiva, daquelas tipo de casamento.

Um dia ela mudou de endereço. Foi um drama, parecia o fim de tudo, a casa nova era tão longe, meu Deus! Precisava até de carro para chegar. Meu medo de perder a amizade foi insuportável, mas o laço era forte e sobreviveu a distância, ainda brincaram muito por lá. O espaço era maior e além do mezanino, arriscado e sedutor, ela ganhou uma suite com closet. Todas essas coisas de vida de adulto passaram a ter sentido pra mim por causa dela. 

O tempo passou e as meninas cresceram. Entraram em uma escola grande, cheia de gente nova e a diferença de um ano entre elas aumentou. Ela fez novas amigas, mais velhas, mais descoladas. Guardei meu ciúmes. Vira e mexe se esbarravam naquele lugar, mas começavam a se tornar desconhecidas. Ainda se falavam, mas os assuntos já não eram os mesmos, as fofocas dela pareciam sempre mais interessantes que as minhas.

Os caminhos foram se abrindo, cada um para seu lado. Mais velhas, mais ocupadas, as histórias já eram com outras pessoas. Com mais uns anos elas se casariam. Não se falavam mais, mas as memórias estavam todas guardadas com muito carinho, lá no baú das coisas queridas da infância, no fundo do coração. 

A força dessa amizade venceu o tempo. Hoje essa mesma força vence a morte. Te amo amiga, quem sabe um dia a gente volta a brincar.